Revoltas Negras

Revolta dos Malês

Luta de escravos muçulmanos inspirou o movimento negro contemporâneo

Considerada uma das mais importantes manifestações dos negros escravizados no início do século XIX, a Revolta dos Malês completa 173 anos nesta sexta (25). Consagrada como uma luta política pelo respeito à liberdade, à cultura e contra a imposição do catolicismo durante o período colonial. A data, definida pelos revoltosos, coincidia com o Ramadã, fim do mês sagrado muçulmano.

Planejado por africanos islâmicos, de origem haussá e nagô, o movimento chegou a reunir 600 integrantes. Os líderes eram chamados de “negros de ganho”, escravos que podiam circular pela cidade realizando pequenos trabalhos remunerados. Além disso, tinham a vantagem de saber ler e escrever em árabe, o que ajudava nas trocas de informações. O objetivo era libertar os negros e matar os brancos e mulatos considerados traidores. O pesquisador João José Reis diz que “se o levante tivesse sido um sucesso, a Bahia malê seria uma nação controlada pelos africanos, tendo à frente os muçulmanos.

Próximo ao dia do levante, negros de diversos lugares do Recôncavo Baiano começaram a vir para Salvador, mas as autoridades souberam do plano após a denúncia de uma escrava. A polícia invadiu um dos lugares onde ocorriam os encontros e reuniões dos islâmicos. Os malês conseguiram fugir e reuniram um grupo para atacar a prisão do quartel no prédio da Câmara Municipal. Para Hamilton Borges, do Movimento Negro Unificado, os malês acreditavam que era possível aos negros da Bahia uma articulação contra a escravidão. “Isso é inspirador ao movimento negro no país, a importância da revolta para a atualidade é exatamente a de lutar contra o preconceito e nos incluir na sociedade” diz Hamilton.

Repressão
A revolta tomou a cidade de forma desorganizada, mas havia um número muito maior de soldados bem armados, o que provocou um massacre. Os registros da época afirmam que 70 escravos e 7 policiais morreram no confronto. Centenas de malês foram presos e condenados à morte, castigados ou enviados de volta para África, com a Corte Portuguesa proibindo a transferência de escravos da Bahia para qualquer outro local do Brasil. Apesar da derrota imposta aos insurgentes, a revolta serviu de inspiração para as lutas contra a escravidão e para outros processos abolicionistas que culminaram com a Lei Áurea de 1888.

A REVOLTA DOS MALÊS EM 1835

João José Reis

Universidade Federal da Bahia

Na madrugada de 25 de janeiro de 1835, um domingo, aconteceu em Salvador ma

revolta de escravos africanos. O movimento de 1835 é conhecido como Revolta dos Malês,

por serem assim chamados os negros muçulmanos que o organizaram. A expressão malê

vem de imalê, que na língua iorubá significa muçulmano. Portanto os malês eram especificamente

os muçulmanos de língua iorubá, conhecidos como nagôs na Bahia. Outros grupos,

até mais islamizados como os haussás, também participaram, porém contribuindo com

muito menor número de rebeldes.

A revolta envolveu cerca de 600 homens, o que parece pouco, mas esse número

equivale a 24 mil pessoas nos dias de hoje. Os rebeldes tinham planejado o levante para

acontecer nas primeiras horas da manhã do dia 25, mas foram denunciados. Uma patrulha

chegou a uma casa na ladeira da Praça onde estava reunido um grupo de rebeldes. Ao

tentar forçar a porta para entrarem, os soldados foram surpreendidos com a repentina saída

de cerca de sessenta guerreiros africanos. Uma pequena batalha aconteceu na ladeira da

Praça, e em seguida os rebeldes se dirigiram à Câmara Municipal, que funcionava no mesmo

local onde funciona ainda hoje.

A Câmara foi atacada porque em seu subsolo existia uma prisão onde se encontrava

preso um dos líderes malês mais estimados, o idoso Pacifico Licutan, cujo nome muçulmano

era Bilal. Este escravo não estava preso por rebeldia, mas porque seu senhor tinha

dívidas vencidas e seus bens, inclusive Licutan, foram confiscados para irem a leilão em

benefício dos credores.

O ataque à prisão não foi bem sucedido. O grupo foi surpreendido no fogo cruzado

entre os carcereiros e a guarda do palácio do governo, localizado na mesma praça.

Daí este primeiro grupo de rebeldes saiu pelas ruas da cidade aos gritos, tentando

acordar os escravos da cidade para se unirem a eles. Dirigiram-se à Vitória onde havia um

outro grupo numeroso de malês que eram escravos dos negociantes estrangeiros ali residentes.

Após se unirem nas imediações do Campo Grande, os rebeldes atravessaram em

frente ao Forte de São Pedro sob fogo cerrado dos soldados, indo dar nas Mercês, de onde

retornaram para o centro da cidade. Aqui atacaram um posto policial ao lado do Mosteiro de

São Bento, outro na atual Rua Joana Angélica (imediações do Colégio Central), lutaram

também no Terreiro de Jesus e outras partes da cidade. Em seguida desceram o Pelourinho,

seguiram pela Ladeira do Taboão e foram dar na Cidade Baixa. Daqui tentaram seguir na

direção do Cabrito, onde tinham marcado encontro com escravos de engenho. Mas foram

barrados no guartel da cavalaria em Água de Meninos. Neste local se deu a última batalha

do levante, sendo os malês massacrados. Alguns que tentaram fugir a nado terminaram se

afogando.

A revolta deixou a cidade em polvorosa durante algumas horas, tendo sido vencida

com a morte de mais de 70 rebeldes e uns dez oponentes. Mas o medo de que um novo

levante pudesse acontecer se instalou durante muitos anos entre os seus habitantes

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A Revolta dos Malês em 1853 – João José Reis

livres. Um medo que, aliás, se difundiu pelas demais províncias do Império do Brasil. Em

quase todas elas, principalmente na capital do país, o Rio de Janeiro, os jornais publicaram

notícias sobre o acontecido na Bahia e as autoridades submeteram a população africana a

uma vigilância cuidadosa e muitas vezes a uma repressão abusiva.

Salvador tinha na época da revolta em torno de 65.500 habitantes, dos quais cerca de

40 por cento eram escravos. Entre a população não-escrava a maioria era também formada

por africanos e seus descentes, chamados na época de crioulos quando eram negros nascidos

no Brasil, além dos mestiços de branco e negro, chamados de pardos, mulatos e

cabras. Juntando os negros e mestiços escravos e livres, os afro-descendentes representavam

78 por cento da população. Os brancos não passavam de 22 por cento. Entre os

escravos, a grande maioria (63 por cento) era nascida na África, chegando a 80 por cento

na região dos engenhos de açúcar, o Recôncavo.

Esses escravos eram trazidos de diversos portos da costa africana. Um grande número

vinha de Luanda, Benguela, Cabinda, mas na época da revolta de 1835 a grande maioria

era embarcada nos portos do golfo do Benim (portos de Ajudá, Porto Novo, Badagri, Lagos).

Foram alguns desses últimos grupos os mais diretamente ligados à revolta. Eles podiam ser

de diversas origens, segundo a língua que falavam: iorubá, haussá, fon, mahi, nupes, bornus

etc. Na Bahia a maioria desses escravos era conhecida por nomes diferentes daqueles que

tinham na África: os de língua iorubá chamavam-se nagôs, os fon e mahi eram conhecidos

como jejes, os nupes como tapas.

Em 1835 a grande maioria dos escravos da Bahia nascidos na África era realmente de

língua iorubá, cerca de 30 por cento. Eram como nagôs. Muitos deles professavam a religião

muçulmana, embora a maioria dos nagôs fosse de fato adepta do candomblé dos

orixás.

A cidade de Salvador tinha uma economia baseada na escravidão, que girava em

torno da cana-de-açúcar produzida na região denominada de Recôncavo, terras que circundam

a Baía de Todos os Santos. Ali também se plantava o fumo, que era exportado para

a Europa e para a África. Na África o fumo era utilizado na compra de escravos.

No Recôncavo, os escravos eram empregados em todo tipo de atividade rural, não

apenas no setor açucareiro e fumageiro. Eles também labutavam na criação de gado e no

cultivo da mandioca. A farinha de mandioca já era naquela época um item fundamental da

dieta de ricos e pobres, senhores e escravos. Como o fumo, a farinha estava também ligada

ao tráfico, pois constituía um dos principais alimentos a bordo dos navios negreiros.

Da mesma forma, os escravos eram utilizados nas vilas e cidades, sobretudo na capital,

onde se ocupavam no trabalho doméstico, nos diversos ofícios (pedreiro, sapateiro,

ferreiro), nas atividades do mar (marinheiro, remador, canoeiro, pescador). Eles lavravam a

terra em pequenas plantações existentes na periferia da cidade, trabalhavam em variados

tipos de construção pública e privada, vendiam uma grande variedade de pequenas mercadorias,

principalmente comida pronta, verduras, peixe, carne. E eram empregados no transporte

de volumes grandes e pequenos, como caixas de açúcar, barris de cachaça, mercadorias

importadas, água de gasto e potável, dejetos humanos, balaios de compras e até

cartas eram levadas ao correio por escravos. Eles também transportavam pessoas nas

cadeiras de arruar, talvez a mais típica atividade dos escravos nas ruas de Salvador.

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A Revolta dos Malês em 1853 – João José Reis

Uma cadeira de arruar do século XIX. Museu de Arte da Bahia.

As ocupações dos presos por suspeita de participação na revolta de 1835 refletem a

variedade de atividades desempenhadas pelos escravos urbanos. Havia entre eles lavradores,

remadores, domésticos, pedreiros, sapateiros, alfaiates, ferreiros, armeiros, barbeiros,

vendedores ambulantes, carregadores de cadeira, entre outras atividades. A grande

maioria dos rebeldes se empregava em ocupações tipicamente urbanas. Foram pouquíssimos

os ocupados na lavoura, por exemplo. Um ou outro tinha vindo do Recôncavo para participar

do levante em Salvador.

Na escravidão urbana os cativos gozavam de maior independência do que na escravidão

rural, e isso facilitou muito a organização do movimento de 1835. Em geral, os escravos

percorriam por toda a cidade trabalhando para seus próprios senhores ou, principalmente,

contratados por terceiros para serviços eventuais. Muitos escravos sequer moravam na

casa senhorial. Chamados negros ou negras de ganho, e também de ganhadores ou

ganhadeiras, esses homens e mulheres escravizados contratavam com seus senhores entregar

certa quantia diária ou semanal de dinheiro, e tudo que ultrapassasse esta quantia

podiam embolsar. O escravo que trabalhasse muito e poupasse muito podia após cerca de

nove longos anos comprar sua liberdade, e muitos assim o fizeram. Alguns chegavam se

tornar prósperos homens de negócio, que era a ocupação mais comum dos que prosperavam.

Muitos africanos, depois de libertos da escravidão, tornavam-se eles próprios senhores

de escravos. Calcula-se em cerca de 7 por cento a proporção dos africanos libertos na

população de Salvador na época da revolta dos malês. Eles representariam em torno de 25

por cento da população africana na cidade.

Africanos escravos e libertos com freqüência trabalhavam e viviam juntos, desempenhando

as mesmas tarefas, morando nas mesmas casas. No trabalho de rua organizavam6

A Revolta dos Malês em 1853 – João José Reis

se em associações chamadas cantos de trabalho, nos quais se reuniam principalmente os

da mesma etnia chefiados por um “capitão” encarregado de acertar os serviços desempenhados

pelo grupo. Assim associados enfrentavam o trabalho diário e desenvolviam laços

de amizade e solidariedade que constantemente se desdobravam em ações políticas. Esses

grupos de trabalho foram essenciais na mobilização dos africanos para a revolta em

1835 e em outras ocasiões. Enquanto esperavam por serviço nas esquinas onde se reuniam,

os africanos iam formulando e aperfeiçoando suas idéias de liberdade e de ataque à

escravidão na Bahia.

Infelizmente não sabemos detalhes do que planejavam fazer os rebeldes depois de

vitoriosos. Há indícios de que não tinham planos amigáveis para as pessoas nascidas no

Brasil, fossem estas brancas, negras ou mestiças. Umas seriam mortas, outras escravizadas

pelos vitoriosos malês. Isso refletia as tensões existentes no seio da população escrava

entre aqueles nascidos na África e aqueles nascidos no Brasil. Que fique bem claro: os

negros nascidos no Brasil, e por isso chamados crioulos, não participaram da revolta, que

foi feita exclusivamente por africanos.

Por isso, se o levante tivesse sido um sucesso, a Bahia malê seria uma nação controlada

pelos africanos, tendo à frente os muçulmanos. Talvez a Bahia se transformasse num

país islâmico ortodoxo, talvez num país onde as outras religiões predominantes entre os

africanos e crioulos (o candomblé e o catolicismo) fossem toleradas. De toda maneira a

revolta não foi um levante sem direção, um simples ato de desespero, mas sim um movimento

político, no sentido de que tomar o governo constituía um dos principais objetivos

dos rebeldes.

Apesar de apoiados por africanos não-muçulmanos, que também entraram na luta, os

malês foram os responsáveis por planejar e mobilizar os rebeldes. Suas reuniões — feitas

nas casas de libertos, nas senzalas urbanas, nos cantos de trabalho — misturavam conspiração,

rezas e aulas em que se exercitavam a recitação, a memorização e a escrita de

passagens do Corão, o livro sagrado do islamismo. O próprio levante foi marcado para

acontecer no final do mês sagrado do Ramadã, o mês do jejum dos muçulmanos. Os malês

foram para as ruas guerrear usando um abadá branco, espécie de camisolão tipicamente

muçulmano, além de também carregar em volta do pescoço e nos bolsos amuletos protetores,

que eram cópias em papel de rezas e passagens do Corão dobradas e enfiadas em

bolsinhas de couro ou pano. Esses amuletos eram confeccionados por mestres muçulmanos,

muitos deles líderes da revolta, que teriam dado a seus seguidores suas bênçãos e a

certeza da vitória.

Cientes de que constituíam minoria na comunidade africana da Bahia, composta de

escravos e libertos de diferentes grupos étnicos e religiosos, os malês não hesitaram em

convidar escravos não-muçulmanos para o levante. Neste sentido, a identidade e a solidariedade

étnicas constituíram um outro fator de mobilização a entrar em jogo.

De fato identidade étnica e religiosa foi muito importante para deslanchar o movimento.

A maioria dos muçulmanos que viviam na Bahia em 1835 era nagô. Apesar de na África,

e mesmo no Brasil, outros grupos, como os haussás, serem mais islamizados do que os

nagôs, coube a estes o predomínio no movimento de 1835. Os nagôs islamizados não só

constituíram a maioria dos combatentes, como a maioria dos líderes. Mais de 80 por cento

dos réus escravos em 1835 eram nagôs, sendo eles apenas 30 por cento dos africanos de

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A Revolta dos Malês em 1853 – João José Reis

Salvador; dos sete líderes identificados, pelo menos cinco eram nagôs. Eram nagôs os

seguintes líderes: os escravos Ahuna, Pacifico Licutan, Sule ou Nicobé, Dassalu ou Damalu

e Gustard. Também nagô era o liberto Manoel Calafate. Os outros eram o escravo tapa Luís

Sanim e o liberto haussá Elesbão do Carmo ou Dandará, que negociava com fumo.

Vistos enquanto grupo étnico os nagôs eram na sua maioria não-muçulmanos, e sim

devotos dos orixás, embora fizessem incursões no campo muçulmano. Por exemplo usavam

os famosos amuletos malês, considerados de grande poder protetor, e provavelmente recorriam

a adivinhos malês, entre outras práticas. Ou seja, naquela fronteira em que as duas

religiões se encontrava, os nagôs como um todo, malês e filhos de orixá, também se encontravam.

E se encontravam como entidade étnica, como pessoas que falavam a mesma língua,

tinham histórias comuns, em muitos casos haviam obedecido aos mesmos reis africanos.

Essas convergências facilitaram a mobilização em 1835 para além das colunas muçulmanas.

Africano Nagô, que pode ser identificado pelas marcas étnicas no rosto.

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A Revolta dos Malês em 1853 – João José Reis

Os nagôs vinham de uma parte específica da África, qual seja a região sudeste da

atual Nigéria e a parte leste da atual República do Benin. Eram de diversos reinos espalhados

por esse território, como Oió, Queto, Egba, Yagba, Ijexá, Ijebu, Ifé entre outros. Esses

reinos durante muito tempo viveram sob a égide do reino de Oió, embora numa espécie de

federação imperial. Na época do levante de 1835 essa federação dominada por Oió estava

em franca desintegração em função de lutas intestinas generalizadas. Os malês especificamente

tiveram sua origem principalmente em Ilorin, que era uma dependência do reino de

Oió que se rebelou sob a liderança de Afonjá. Este homem se aliou aos muçulmanos haussás,

fulanis e iorubás contra o alafin, que era o título do rei de Oió. Essas guerras foram responsáveis

pela transformação de milhares dos habitantes locais em prisioneiros, que eram

vendidos como escravos aos traficantes do litoral, e daí exportados para a Bahia.

Embora a grande maioria dos interrogados em 1835 respondesse que era apenas

“nagô”, alguns fizeram questão de ser mais precisos, indicando também o local específico

de onde vinham. O carregador de cadeira Joaquim de Mattos, por exemplo, respondeu ser

de “nação Nagô Gexá”, quer dizer de origem Ijexá, um grupo étnico do leste do território

iorubá. Joaquim havia se alforriado há pelo menos sete anos e portanto deveria estar na

Bahia há cerca de nove anos no mínimo. A liberta Edum disse ser de “nação nagô-bá” e um

outro africano interrogado disse ser ela apenas “Bá”, significando ser oriunda de Egba ou

Yagba. O liberto Lobão Machado foi bem claro: era de nação “Nagô-Ebá”, ou seja de Egba.

Francisco, cerca de 25 anos de idade, escravo doméstico e comprador, que vivia em Salvador

há cerca de 6 anos, era Yaba, ou, segundo suas próprias palavras, “Nagô-Abá”. E o

escravo José se disse “nagô jabu”, provavelmente natural de Ijebu. A expressão nagô remetia

à África descoberta no Brasil, pois só aqui eles se tornariam conhecidos por aquela

expressão, enquanto Ijebu, Egba, Yagba, Oyo, Ijexá (ou Ilesha) representavam a África

deixada do lado de lá do Atlântico. O escravo nagô Antônio, doméstico e carregador de

cadeira, resumiu bem a questão quando afirmou: “ainda que todos são Nagôs, cada um tem

sua terra”.

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A Revolta dos Malês em 1853 – João José Reis

Ao deporem sobre o grau de envolvimento com o islamismo, muitos interrogados se

reportaram a suas experiências africanas. Alguns disseram abertamente que haviam recebido

instrução islâmica na África, possivelmente em escolas corânicas ou madrasas. O

nagô Pedro, ao ser perguntado sobre um livro e vários manuscritos em árabe encontrados

em seu poder, respondeu: “o livro continha rezas de sua terra e os papéis várias doutrinas

cuja linguagem e sua ciência ele sabia antes de vir de sua terra”. Pompeo da Silva, nagô

forro, com cerca de 30 anos de idade, “perguntado se ele sabia ou entendia das letras

arábicas que usavam os Nagôs, disse, que tendo aprendido em sua terra pequenino que

agora quase nada se lembrava”. Antônio, escravo Haussá, pescador, disse que sabia escrever

em árabe, mas só escrevia “orações segundo o cisma de sua terra”. Ou seja, não

escrevia coisas subversivas, políticas, só orações. Acrescentou que “quando pequeno em

sua terra andava na escola”.

Amuleto malê

O escravo nagô Gaspar, preso com grande quantidade de escritos árabes, amuletos,

um tessubá (o rosário malê) etc, disse ter sido ele autor dos escritos, e que aprendera o

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A Revolta dos Malês em 1853 – João José Reis

árabe em sua terra. Ele leu trechos do que havia escrito, embora alegasse não saber traduzir

para o português.

Observamos em todas essas declarações as lembranças de uma educação muçulmana

na África, às vezes lembranças de quando estes escravos eram ainda crianças. Isso acontecia

mesmo no caso dos nagôs, que vinham de um lugar onde o islamismo era adotado por

uma minoria, ao contrário do país haussá, onde a religião estava arraigada há tempos.

Outras tradições islâmicas também atravessaram o Atlântico, como o já mencionado

uso do amuleto. O liberto Lobão Machado acima mencionado, quando preso, levava diversos

amuletos protetores em volta do pescoço. Perguntado para que usava aquilo, disse ser

para proteger contra o vento. Provavelmente referia-se ao jinn ou anjonu, espécie de espíritos

malês. Outros interrogados responderam como ele que os amuletos eram para proteger

do vento. Pela quantidade de amuletos apreendidos pela polícia em 1835, muita gente

se protegia desta forma contra espíritos malignos. O escravo haussá Antônio acima mencionado

usava a educação muçulmana recebida em sua terra para escrever amuletos, que

vendia por bom preço — equivalente ao jornal de um escravo de aluguel — a africanos que

também desejavam se proteger dessas forças espirituais que haviam acompanhado os africanos

ao Novo Mundo.

Tais informações têm o valor de explicitar, através da fala dos interrogados, tradições

aprendidas na África e mantidas na Bahia. Estes depoimentos mostram com muita nitidez

uma projeção da história africana na história brasileira.

É preciso esclarecer que nem todos os africanos muçulmanos existentes na Bahia em

1835 participaram da revolta. As autoridades, porém, usaram a posse de papéis malês

como prova de rebeldia e por isso muitos inocentes foram presos e condenados.

Os malês receberam diversos tipos de sentença. Foram elas: prisão simples, prisão

com trabalho, açoite, morte e deportação para a África. Esta última pena foi atribuída a

muitos libertos presos como suspeitos mas contra os quais nenhuma prova definitiva foi

encontrada. Mesmo assim, apesar de absolvidos, foram expulsos do país. A pena de açoites

variava de 300 até 1.200 chicotadas, que foram distribuídas ao longo de vários dias. O

idoso Pacifico Licutan foi sentenciado a 1.200 chibatadas. Sabe-se de pelo menos um condenado

que morreu em decorrência desta pena de tortura, o escravo nagô Narciso.

A pena de morte, foi imposta, inicialmente a 16 acusados, mas posteriormente 12

deles conseguiram sua comutação. Quatro foram no final executados. Eram eles o liberto

Jorge da Cruz Barbosa, cujo nome iorubá era Ajahi, carregador de cal; Pedro, nagô, carregador

de cadeira, escravo de um negociante inglês; Gonçalo e Joaquim, ambos escravos

nagôs. Todos quatro foram executados por um pelotão de fuzilamento no Campo da Pólvora,

no dia 14 de maio de 1835. E assim se findava um dos episódios mais empolgantes da

resistência escrava no Brasil.

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A Revolta dos Malês em 1853 – João José Reis

BIBLIOGRAFIA

Sobre a África dos malês, ler Robin Law, The Oyo Empire, c. 1600-c. 1836: A West

African Imperialism in the Era of the Atlantic Slave Trade, Oxford: Claredon, 1977; Paul

Lovejoy, A escravidão na África, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003, capítulo 9;

Pierre Verger, Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benim e a Bahia de

Todos os Santos, Salvador, Corrupio, 1987; e Alberto da Costa e Silva, A manilha e o libambo,

Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2002, pp. 451-562.

Sobre trabalho escravo urbano, alforria e africanos libertos na Bahia, leia Maria Inês

C. de Oliveira, O liberto: seu mundo e os outros, Salvador, Corrupio, 1988; João José Reis,

“A greve negra de 1857 na Bahia”, Revista USP, nº 18 (1993), pp. 6-29; Stuart B. Schwartz,

“A Manumissão dos escravos no Brasil Colonial – Bahia 1684-1745, Anais de Historia, nº 6

(1974), pp. 71-114; Kátia M. de Queirós Mattoso, “A propósito de cartas de alforria”, Anais

de História, nº 4 (1972), pp. 23-52.

Sobre a Revolta dos Malês especificamente, ler Joâo José Reis, Rebelião escrava no

Brasil: a história do levante dos malês em 1835, São Paulo, Companhia das Letras, 2003;

Décio Freitas, Insurreições escravas, Porto Alegre, Movimento, 1976; e o livro de Pierre

Verger, Fluxo e refluxo, capítulo IX.

Os depoimentos dos malês presos em 1835 se encontram nos inquéritos policiais e

processos judiciais depositados no Arquivo Público do Estado da Bahia. Esses documentos

já foram publicados em diversos números dos Anais do Arquivo do Estado da Bahia. Também

estão sob a guarda do Arquivo o que sobrou dos documentos escritos em árabe.

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A Revolta dos Malês em 1853 – João José Reis

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One response

16 12 2008
VENILDO JOSE BEZERRA REYNALDO

ENTENDA A BALAIADA

INTRODUÇÃO

Em meados do ano de 1838, um movimento armado pontual e localizado se estabeleceu no Maranhão. Esse movimento tinha característica político-partidária encabeçado pelo Partido dos Bentivis (Bem-ti-vis=avanço liberal) contra os interesses dos que compunham o Partido dos Cabanos (Cabano=regresso conservador). É fácil entender: Os Cabanos representavam os interesses dos portugueses e era simpático à Coroa Portuguesa. Enquanto os Bentivis era composto por brasileiros e se diziam liberais. Naquela época ser liberal era posicionar-se contra a forma de governo monárquico, defender os brasileiros natos livres e ser radicalmente contra os portugueses natos, porém não eram abolicionistas. Ainda no mesmo ano, o movimento elitista tomou o aspecto de movimento popular. Isto é, o foco objetivado mudou completamente por razões alheias a vontade dos Bentivis, e continuou como movimento popular apartidário armado contra os interesses das elites de então. O cenário dos acontecimentos mais importantes centralizou-se na cidade de Caxias (antes chamada de Vila de Caxias das Aldeias Altas), cujo levante resistiu até 15 de janeiro de 1841, tendo sido pacificamente desmantelada pelo aplaudido e vitorioso carioca, o Coronel de brigada Luis Alves de Lima e Silva, governador do Maranhão e comandante geral das forças oficiais imperiais (no Maranhão).

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